Pular para o conteúdo principal

Dra. Tahirih Kaffashi – Psiquiatra

Há pessoas que passaram anos em estado de alerta sem perceber que isso tinha um nome. Podem se assustar com facilidade, sentir vergonha de si mesmas, evitar vínculos ou ter a impressão de que nunca conseguem descansar de verdade. O trauma complexo pode ajudar a compreender parte desse sofrimento, especialmente quando experiências dolorosas foram repetidas, prolongadas e ocorreram em relações nas quais deveria haver proteção.

Reconhecer essa possibilidade não significa reduzir uma história a um diagnóstico. Significa abrir espaço para que aquilo que foi vivido seja escutado com seriedade, sem julgamentos e sem a expectativa injusta de que alguém simplesmente deixe o passado para trás.

O que é trauma complexo?

O trauma complexo está associado à exposição repetida ou contínua a situações traumáticas, em geral por longos períodos e frequentemente em contextos interpessoais. Violência física, sexual ou psicológica na infância, negligência persistente, abuso em relações afetivas, bullying grave e prolongado, situações de cárcere ou convivência constante com ameaças são alguns exemplos possíveis.

Nem toda pessoa que passa por essas experiências desenvolverá o mesmo quadro. A forma como cada pessoa responde depende de muitos fatores: idade em que os eventos ocorreram, duração, presença ou ausência de uma rede de proteção, características individuais, condições de vida e possibilidade de receber ajuda depois do trauma.

Na Classificação Internacional de Doenças, a CID-11, o transtorno de estresse pós-traumático complexo é descrito como uma condição que inclui os sintomas do estresse pós-traumático e dificuldades adicionais, chamadas de perturbações na organização do self. Essa formulação clínica pode ser útil, mas uma avaliação cuidadosa é indispensável. Sofrimento psíquico não deve ser diagnosticado a partir de uma lista encontrada na internet.

Trauma complexo e estresse pós-traumático não são a mesma coisa

O transtorno de estresse pós-traumático pode surgir após um evento traumático único ou uma sequência de eventos. Entre os sintomas mais conhecidos estão lembranças invasivas, pesadelos, evitação de situações que remetam ao ocorrido e sensação persistente de perigo.

No trauma complexo, esses sintomas podem estar presentes, mas há também impactos mais amplos na maneira de sentir, de se perceber e de se relacionar. Isso não quer dizer que um sofrimento seja mais grave ou mais legítimo que o outro. São apresentações diferentes, e cada uma pede uma escuta clínica atenta.

Sinais que podem aparecer no trauma complexo

Uma pessoa com trauma complexo pode ter dificuldade para regular emoções intensas. Raiva, medo, tristeza ou angústia podem surgir com força e parecer desproporcionais ao que está acontecendo no presente. Em outros momentos, pode haver sensação de anestesia emocional, desligamento, vazio ou dificuldade de reconhecer o que se sente.

Também são frequentes uma visão muito negativa de si mesma, culpa persistente e vergonha profunda. Alguém pode acreditar que é defeituoso, indigno de cuidado ou responsável pela violência que sofreu, mesmo quando racionalmente entende que não teve culpa. Essas ideias não são fraqueza de caráter. Muitas vezes, foram formas de tentar dar sentido e sobreviver a uma realidade que parecia impossível de controlar.

Nos relacionamentos, podem aparecer medo de abandono, desconfiança, necessidade intensa de agradar ou, ao contrário, afastamento de qualquer intimidade. Para quem viveu agressões ou negligência em vínculos próximos, confiar pode parecer arriscado. O corpo e a mente aprendem a se proteger, ainda que essa proteção passe a trazer sofrimento quando o perigo já não está presente.

Outras manifestações possíveis incluem dificuldade de concentração, alterações do sono, sintomas físicos de ansiedade, uso de álcool ou outras substâncias para aliviar sentimentos dolorosos, comportamentos de autossabotagem e episódios dissociativos. Na dissociação, a pessoa pode se sentir desconectada do corpo, das emoções ou do ambiente, como se estivesse funcionando no automático.

Por que o diagnóstico exige cuidado

Os sintomas relacionados ao trauma podem se parecer com os de depressão, transtornos de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos dissociativos, transtornos de personalidade ou alterações decorrentes do uso de substâncias. Além disso, essas condições podem coexistir. Por isso, dar um nome rápido ao sofrimento nem sempre ajuda.

Uma boa avaliação psiquiátrica considera os sintomas atuais, a história de vida, os vínculos, a saúde física, os tratamentos já realizados e os recursos que a pessoa tem para se proteger e se recuperar. Nem toda consulta precisa abordar detalhes traumáticos logo no início. Respeitar o ritmo do paciente também é parte do cuidado.

Perguntar sobre experiências difíceis não serve para obrigar alguém a reviver o que aconteceu. Serve para compreender conexões que, muitas vezes, ficaram invisíveis até para a própria pessoa. Sua história pode ser escutada por inteiro, com privacidade e respeito.

Tratamento do trauma complexo: segurança antes de pressa

O tratamento costuma combinar psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico quando indicado e fortalecimento de uma rede de apoio. Não há uma fórmula única. O plano precisa levar em conta os sintomas predominantes, a estabilidade emocional no momento, a presença de risco, as condições de vida e as preferências do paciente.

Em muitas situações, o primeiro passo é construir mais segurança no presente. Isso pode envolver regular o sono, reduzir crises de ansiedade, compreender gatilhos, desenvolver formas de lidar com emoções intensas e estabelecer limites em relações que ainda são violentas ou ameaçadoras. Falar detalhadamente sobre memórias traumáticas antes de haver recursos internos e suporte suficiente pode ser desorganizante para algumas pessoas.

A psicoterapia é central nesse processo. Abordagens voltadas ao trauma podem ajudar a elaborar memórias, reduzir evitação, reconstruir sentidos e desenvolver formas mais seguras de se relacionar consigo e com os outros. O tipo de terapia e o ritmo do trabalho dependem do caso. O tratamento não deve exigir exposição desnecessária ao sofrimento nem prometer resultados imediatos.

A medicação psiquiátrica pode ser recomendada para sintomas como depressão, ansiedade intensa, insônia, pesadelos ou irritabilidade. Ela não apaga experiências traumáticas e não substitui a psicoterapia, mas pode diminuir o sofrimento agudo e criar melhores condições para o trabalho terapêutico. A escolha, quando necessária, deve ser feita de modo conjunto, com explicações claras sobre benefícios esperados, limites e possíveis efeitos adversos.

Também vale olhar para fatores concretos da vida. Uma pessoa não se recupera apenas entendendo o que sente. Ter moradia segura, relações menos violentas, rotina possível, apoio social e acesso contínuo a cuidados de saúde faz diferença. Às vezes, o que parece resistência ao tratamento é exaustão diante de uma realidade ainda marcada por insegurança.

O que esperar de uma consulta psiquiátrica

Buscar ajuda não obriga ninguém a aceitar um diagnóstico ou iniciar medicação. A consulta é um espaço para relatar o que tem acontecido, fazer perguntas e construir um plano com autonomia. Um acompanhamento responsável evita simplificações e considera tanto o sofrimento quanto os recursos já presentes na trajetória de cada paciente.

Para algumas pessoas, o atendimento online pode facilitar a continuidade do cuidado, especialmente quando há dificuldade de deslocamento ou quando não existe especialista disponível na cidade. Para outras, o atendimento presencial traz mais conforto. O formato deve ser avaliado de acordo com as necessidades individuais e as condições de privacidade para a consulta.

Se houver pensamentos de morte, risco de se machucar, ameaça atual de violência ou incapacidade de se manter em segurança, é necessário procurar atendimento de urgência imediatamente ou acionar alguém de confiança. Nessas situações, não é preciso enfrentar tudo sozinho.

Viver com as marcas de um trauma prolongado pode fazer parecer que o sofrimento define quem você é. Mas reações desenvolvidas para sobreviver não precisam determinar todo o futuro. Com escuta sensível, tempo e um cuidado baseado em evidências, é possível construir mais segurança, presença e espaço para uma vida que não seja organizada apenas pelo medo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *