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Dra. Tahirih Kaffashi – Psiquiatra

Há sofrimentos que não aparecem em exames de rotina, mas passam a ocupar quase todos os espaços da vida: o sono deixa de reparar, o trabalho exige um esforço desproporcional, as relações parecem difíceis e até decisões simples se tornam pesadas. Os transtornos mentais não definem uma pessoa, nem representam falta de força de vontade. São condições de saúde que merecem escuta sensível, avaliação criteriosa e tratamento baseado em evidências.

Muitas pessoas adiam a busca por ajuda porque acreditam que precisam “aguentar mais um pouco” ou porque temem receber um diagnóstico. Outras já procuraram atendimento, mas saíram com dúvidas, sentindo que sua história foi resumida rapidamente a um rótulo ou a uma receita. Um cuidado psiquiátrico de qualidade parte de outro lugar: compreender o que está acontecendo, como aquilo começou, o que mantém o sofrimento e quais caminhos fazem sentido para aquela pessoa.

O que são transtornos mentais?

Transtornos mentais são condições que afetam pensamentos, emoções, comportamentos, percepção da realidade ou a capacidade de lidar com as demandas cotidianas. Eles podem ter causas múltiplas. Aspectos biológicos, experiências de vida, relações familiares, estresse prolongado, perdas, violências, uso de substâncias, condições clínicas e contexto social podem participar de formas diferentes em cada história.

Isso significa que não existe um único perfil de paciente, nem uma explicação simples para todos os casos. Duas pessoas podem ter sintomas parecidos de ansiedade, por exemplo, e precisar de planos de cuidado bastante distintos. Uma pode estar enfrentando uma sobrecarga recente no trabalho; outra pode conviver há anos com medo intenso, esquivas e sintomas físicos que limitam sua autonomia.

Também é útil diferenciar sofrimento psíquico de transtorno mental, sem criar uma separação rígida. Tristeza após uma perda, preocupação diante de uma dificuldade financeira ou medo em uma situação de risco podem ser respostas humanas esperadas. A avaliação se torna especialmente necessária quando a intensidade, a duração ou o impacto desses sintomas passam a comprometer a vida da pessoa.

Nem todo sintoma é igual, mas todo sofrimento merece atenção

Ansiedade persistente, crises de pânico, humor deprimido, irritabilidade intensa, pensamentos repetitivos, compulsões, insônia, alterações importantes de apetite e dificuldade de concentração estão entre as queixas frequentes em consultório. Algumas pessoas relatam sensação de vazio, medo de perder o controle ou uma exaustão que não melhora mesmo depois de descansar.

Há ainda sintomas que podem ser confundidos com traços de personalidade ou com “fase ruim”. A necessidade de checar algo repetidamente, por exemplo, pode fazer parte de um transtorno obsessivo-compulsivo quando é movida por pensamentos intrusivos, causa sofrimento e consome tempo significativo. Recordações invasivas, hipervigilância e esquiva após um evento traumático podem estar relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático, mas precisam ser avaliados dentro do contexto de cada pessoa.

O diagnóstico não deve ser feito por comparação com relatos em redes sociais, listas na internet ou comentários de conhecidos. Essas fontes podem ajudar alguém a nomear uma experiência e perceber que não está só, mas não substituem uma avaliação clínica. Sintomas semelhantes podem ocorrer em transtornos diferentes, em reações ao estresse, em efeitos de medicamentos ou em condições clínicas que também precisam ser investigadas.

Quando buscar avaliação para transtornos mentais

Não é preciso esperar uma crise grave para procurar um psiquiatra. Vale considerar uma avaliação quando o sofrimento persiste por semanas, quando a rotina começa a ser afetada ou quando você sente que tem usado toda a sua energia apenas para parecer bem diante dos outros.

Sinais como queda importante no desempenho profissional ou acadêmico, afastamento de pessoas queridas, abandono de atividades antes prazerosas, uso de álcool ou outras substâncias para lidar com emoções e alterações marcantes no sono merecem atenção. O mesmo vale para mudanças de comportamento percebidas por familiares ou amigos, principalmente quando a própria pessoa tem dificuldade de reconhecer o quanto está sofrendo.

Buscar cuidado não significa que a situação seja irreversível ou que haverá necessariamente uso de medicação. Significa abrir espaço para uma conversa clínica cuidadosa. Em alguns casos, o acompanhamento pode incluir psicoterapia, ajustes de hábitos e monitoramento. Em outros, medicamentos podem ser indicados como parte de um plano mais amplo. A melhor conduta depende do diagnóstico, da gravidade, do histórico de tratamentos, das preferências da pessoa e de possíveis condições de saúde associadas.

Quando há pensamentos de morte, desejo de se machucar, risco de agressão, confusão mental intensa, perda de contato com a realidade ou incapacidade de manter a própria segurança, é necessário buscar atendimento de urgência imediatamente. Nesses momentos, ficar sozinho pode aumentar o risco. Acionar alguém de confiança, procurar um pronto atendimento ou ligar para o SAMU, pelo 192, são medidas de proteção.

Como acontece uma avaliação psiquiátrica

Uma consulta psiquiátrica não deveria ser uma conversa apressada sobre sintomas isolados. A avaliação costuma incluir a queixa atual, o momento em que os sintomas começaram, situações que pioram ou aliviam o quadro, sono, alimentação, rotina, trabalho, relações, histórico familiar e experiências anteriores de tratamento.

Também podem ser investigados medicamentos em uso, consumo de álcool e outras substâncias, doenças clínicas e sintomas físicos. Isso é relevante porque alterações hormonais, problemas de tireoide, dores crônicas, distúrbios do sono e outros fatores podem influenciar o humor, a atenção e a ansiedade. Quando necessário, o psiquiatra pode solicitar exames ou articular o cuidado com outros profissionais.

O diagnóstico, quando indicado, é uma ferramenta para organizar hipóteses e orientar escolhas terapêuticas. Ele não resume a identidade de ninguém. Uma pessoa não é “um transtorno de ansiedade” ou “um transtorno bipolar”; ela é alguém com uma história, recursos, vínculos, dificuldades e necessidades próprias.

É comum que a compreensão do quadro seja refinada ao longo das consultas. Alguns sintomas só ficam mais claros com o acompanhamento, especialmente quando há mais de uma condição envolvida ou quando o sofrimento foi silenciado por muito tempo. Essa cautela não é indecisão: faz parte de uma prática responsável.

Tratamento: reduzir sintomas e recuperar possibilidades

O objetivo do tratamento não é transformar a personalidade de alguém nem exigir produtividade constante. É reduzir o sofrimento, ampliar autonomia e permitir que a pessoa volte a viver de forma mais coerente com o que considera importante.

A psicoterapia pode ajudar a compreender padrões, elaborar experiências difíceis e desenvolver estratégias para lidar com emoções e relações. O tratamento medicamentoso, quando bem indicado e acompanhado, pode reduzir sintomas que estão impedindo a pessoa de dormir, trabalhar, sair de casa, estudar ou se vincular. Não existe uma resposta única sobre usar ou não usar medicação. Há situações em que ela é central; em outras, não é necessária ou deve ser usada apenas por um período determinado.

Acompanhamento longitudinal faz diferença porque a vida muda e o tratamento também pode precisar mudar. Efeitos colaterais, resposta aos medicamentos, novas demandas, recaídas e conquistas precisam ser discutidos com clareza. Nenhuma medicação psiquiátrica deve ser iniciada, interrompida ou ajustada por conta própria, mesmo quando há vontade de parar por se sentir melhor ou por medo de depender dela.

Há ainda cuidados cotidianos que podem apoiar o tratamento, como regularidade do sono, alimentação possível dentro da realidade de cada pessoa, atividade física compatível com suas condições e redução do isolamento. Eles não substituem tratamento especializado em quadros moderados ou graves, e apresentá-los como solução única pode aumentar a culpa de quem já está exausto. Cuidado em saúde mental não é uma lista de tarefas a cumprir perfeitamente.

O que esperar de um cuidado respeitoso

Uma relação terapêutica segura permite perguntas. Você pode querer entender por que uma hipótese diagnóstica está sendo considerada, quais são os benefícios e riscos de um medicamento, quanto tempo o tratamento pode durar ou o que fazer se os sintomas piorarem. Explicações claras são parte do cuidado, não um detalhe.

Também é legítimo compartilhar receios: medo de julgamento, vergonha de falar sobre certos pensamentos, preocupação com sigilo ou experiências frustrantes em atendimentos anteriores. Na psiquiatria, a confiança é construída consulta após consulta. Sua história precisa ser escutada por inteiro, inclusive quando ela parece confusa, contraditória ou difícil de contar.

Procurar ajuda para transtornos mentais não exige que você tenha todas as respostas antes da primeira consulta. Basta reconhecer que algo tem pesado demais para carregar sozinho. A partir de uma escuta cuidadosa, é possível construir um caminho de tratamento que respeite seu tempo, sua realidade e a possibilidade concreta de voltar a se sentir mais presente na própria vida.

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