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Dra. Tahirih Kaffashi – Psiquiatra

Há pessoas que passam alguns dias por mês sentindo que se tornam irreconhecíveis para si mesmas: a irritação parece desproporcional, a tristeza ganha força, conflitos se multiplicam e tarefas simples exigem uma energia que não está disponível. O transtorno disfórico pré-menstrual pode estar por trás desse padrão cíclico de sofrimento intenso. Não se trata de falta de força de vontade, exagero ou de uma “TPM comum”. É uma condição de saúde mental que merece escuta sensível, avaliação criteriosa e tratamento.

A TPM é frequente e pode trazer desconfortos físicos e emocionais. No entanto, quando os sintomas psíquicos são muito intensos, prejudicam relações, trabalho, estudos ou autocuidado e se repetem em uma fase específica do ciclo, é necessário considerar a possibilidade de transtorno disfórico pré-menstrual, também chamado pela sigla TDPM.

Quando os sintomas vão além da TPM

O TDPM ocorre na fase lútea do ciclo menstrual, isto é, nos dias ou semanas que antecedem a menstruação. Em geral, os sintomas melhoram pouco depois de o sangramento começar e há um intervalo de maior bem-estar após a menstruação. Essa relação temporal é uma parte central da avaliação.

Cada pessoa vive o transtorno de uma forma, mas os sintomas mais característicos costumam incluir alterações emocionais importantes. Podem aparecer:

  • irritabilidade intensa, raiva ou conflitos frequentes;
  • tristeza profunda, sensação de desesperança ou choro fácil;
  • ansiedade, tensão, sensação de estar “no limite” ou de perder o controle;
  • oscilações marcadas de humor e maior sensibilidade à rejeição.

Também são comuns dificuldade de concentração, cansaço, alterações de sono e apetite, perda de interesse por atividades habituais, sensação de sobrecarga e sintomas físicos como inchaço, sensibilidade mamária, dor de cabeça ou dores musculares. Para o diagnóstico, não basta a presença de sintomas: é preciso que eles causem prejuízo clinicamente relevante na vida cotidiana.

Muitas pacientes descrevem a experiência como se, por alguns dias, tudo ficasse mais pesado. Uma conversa neutra parece uma crítica, uma pendência pequena vira algo insuportável e pensamentos negativos se tornam mais convincentes. Reconhecer esse padrão não diminui o sofrimento. Ao contrário, ajuda a dar nome ao que acontece e abre caminho para intervenções mais adequadas.

Como é feito o diagnóstico do transtorno disfórico pré-menstrual

O diagnóstico é clínico, realizado por profissional de saúde capacitado, a partir de uma conversa detalhada sobre sintomas, história de vida, saúde física, uso de medicamentos, ciclos menstruais e impactos na rotina. Não existe um exame de sangue isolado que confirme o TDPM.

Um recurso muito valioso é o registro diário dos sintomas por pelo menos dois ciclos menstruais. Anotar humor, ansiedade, sono, irritabilidade, sintomas físicos, datas do ciclo e situações de estresse permite observar se há, de fato, uma piora concentrada no período pré-menstrual e uma remissão posterior. Esse acompanhamento evita que o diagnóstico se baseie apenas na lembrança de momentos especialmente difíceis.

A avaliação também considera critérios diagnósticos estabelecidos pela psiquiatria. Em linhas gerais, deve haver ao menos um sintoma afetivo relevante, como humor deprimido, ansiedade, labilidade emocional ou irritabilidade, associado a outros sintomas, em um padrão cíclico e com prejuízo funcional.

Esse cuidado é essencial porque sentir piora antes da menstruação não significa automaticamente ter TDPM. Algumas pessoas têm outro transtorno mental que se intensifica nesse período. Outras enfrentam efeitos de privação de sono, estresse crônico, alterações da tireoide, anemia, dor persistente ou mudanças relacionadas a anticoncepcionais. Sua história precisa ser escutada por inteiro, sem conclusões apressadas.

TDPM e piora pré-menstrual de outros transtornos

Depressão, transtornos de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno bipolar e estresse pós-traumático podem apresentar agravamento no período pré-menstrual. Nesses casos, os sintomas não desaparecem completamente no restante do ciclo, mas podem ficar mais intensos antes da menstruação.

A diferença parece sutil, mas muda o plano terapêutico. Por exemplo, uma pessoa com depressão ao longo de todo o mês e piora pré-menstrual pode precisar de uma estratégia diferente daquela cuja alteração de humor surge apenas na fase lútea. Uma avaliação psiquiátrica cuidadosa também é particularmente importante quando há história de episódios de euforia, redução da necessidade de sono, impulsividade marcante ou bipolaridade na família.

Tratamento: um plano que respeita cada história

Há tratamentos eficazes para o transtorno disfórico pré-menstrual. A escolha depende da intensidade dos sintomas, de condições clínicas associadas, de planos reprodutivos, de tratamentos já tentados e das preferências da paciente. O objetivo não é apenas reduzir sintomas em uma semana do mês, mas devolver previsibilidade, autonomia e qualidade de vida.

A psicoterapia pode ajudar a reconhecer padrões de pensamento, antecipar momentos de maior vulnerabilidade e construir formas mais protetivas de lidar com conflitos, autocobrança e sobrecarga. Em abordagens estruturadas, como a terapia cognitivo-comportamental, é possível desenvolver estratégias práticas sem tratar o sofrimento como uma falha pessoal.

Os antidepressivos, especialmente os que atuam na serotonina, são uma opção com boa evidência para muitas pacientes. Dependendo do caso, podem ser usados de forma contínua ou apenas durante parte do ciclo. Essa decisão deve ser individualizada e acompanhada por médico, considerando benefícios, possíveis efeitos adversos, outras medicações e histórico psiquiátrico.

Algumas opções hormonais também podem ser consideradas em conjunto com a ginecologia, sobretudo quando há necessidade contraceptiva ou sintomas relacionados ao ciclo que mereçam manejo específico. Elas não são adequadas para todas as pessoas, pois fatores como enxaqueca com aura, risco cardiovascular, tabagismo, histórico de trombose e desejo de gestação influenciam a escolha.

Mudanças de rotina, como regularizar o sono, incluir movimento físico possível, reduzir álcool e observar o efeito da cafeína, podem aliviar parte dos sintomas. Elas são recursos complementares, não uma obrigação nem substituem tratamento quando há sofrimento intenso. A ideia de que bastaria “comer melhor” ou “fazer exercícios” pode aumentar a culpa de quem já está exausta.

Em alguns casos, o plano inclui ajustes ao longo do tempo. O que funciona em um momento da vida pode deixar de ser suficiente diante de mudanças hormonais, maternidade, luto, pressão profissional ou surgimento de outra condição de saúde. Acompanhamento longitudinal permite revisar escolhas com segurança.

Quando procurar ajuda com mais urgência

Vale buscar avaliação quando os sintomas mensais causam prejuízo, sofrimento importante ou conflitos repetidos que não representam quem você se sente no restante do ciclo. Levar um registro dos sintomas para a consulta pode ser útil, mas não é preciso esperar dois meses para pedir ajuda se o sofrimento já está intenso.

Pensamentos de morte, desejo de se machucar, planejamento suicida, sensação de que não conseguirá se manter em segurança ou agitação extrema exigem cuidado imediato. Nessa situação, procure um pronto atendimento, acione o SAMU pelo 192 ou peça que uma pessoa de confiança permaneça com você. O CVV atende pelo 188 para apoio emocional. Você não precisa atravessar uma crise sozinha.

O que esperar de uma consulta psiquiátrica

Uma boa consulta não se resume a receber uma receita. Ela inclui espaço para compreender quando os sintomas começaram, como se relacionam com o ciclo, quais tratamentos foram tentados, como está o sono, o trabalho, os vínculos e o que você espera do cuidado. Perguntas sobre saúde ginecológica, medicamentos, uso de substâncias e história familiar também fazem parte de uma avaliação responsável.

Na prática da Dra. Tahirih Kaffashi, o acompanhamento pode acontecer presencialmente em São Paulo ou por consulta psiquiátrica online, conforme a necessidade de cada paciente. O plano terapêutico é construído em conjunto, com explicações claras e revisões periódicas, porque a resposta ao tratamento e as prioridades de vida merecem ser consideradas com respeito.

Dar atenção ao padrão dos sintomas não é reduzir você ao seu ciclo menstrual. É reconhecer uma informação relevante sobre o seu corpo e sua saúde mental, para que os dias difíceis deixem de definir o ritmo da sua vida.

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