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Dra. Tahirih Kaffashi – Psiquiatra

Uma dúvida recorrente antes de iniciar tratamento é: remédio para ansiedade vicia? O receio faz sentido, especialmente para quem já ouviu histórias de pessoas que não conseguem ficar sem um comprimido ou que se sentiram mal ao tentar interrompê-lo. Mas a resposta não é única: alguns medicamentos podem, de fato, causar dependência quando usados de determinadas formas. Outros não provocam vício, embora precisem de tempo, ajuste de dose e acompanhamento para funcionar com segurança.

Mais do que escolher entre tomar ou não tomar uma medicação, o ponto é entender qual é a indicação, por quanto tempo ela será usada e como ela se encaixa na sua história. Ansiedade não é fraqueza, falta de controle ou algo que se resolve apenas com força de vontade. Quando ela limita o sono, o trabalho, os vínculos ou a capacidade de viver o cotidiano, merece uma escuta sensível e um cuidado bem planejado.

Remédio para ansiedade vicia em todos os casos?

Não. A expressão “remédio para ansiedade” reúne classes de medicamentos bastante diferentes entre si. Confundir todas elas pode gerar medo desnecessário ou, no outro extremo, uma falsa sensação de segurança.

Os benzodiazepínicos, como clonazepam, alprazolam, diazepam e lorazepam, são os medicamentos mais associados à dependência. Eles costumam reduzir a ansiedade de forma rápida e podem ser úteis em situações específicas, como crises intensas, insônia aguda ou períodos curtos de grande sofrimento. Porém, o uso contínuo, sem reavaliação, aumenta o risco de o organismo se acostumar à substância.

Já antidepressivos usados no tratamento de transtornos de ansiedade, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina, não causam vício no sentido clássico. Eles não costumam levar à busca compulsiva pela medicação, ao aumento da dose por desejo de euforia ou à perda de controle sobre o uso. Seu efeito é gradual e está relacionado à regulação de circuitos cerebrais envolvidos em ansiedade, humor e resposta ao estresse.

Isso não significa que possam ser interrompidos de qualquer maneira. Alguns antidepressivos podem causar sintomas de descontinuação se forem suspensos de forma abrupta, como tontura, irritabilidade, alterações no sono, sensação de choque no corpo ou retorno dos sintomas ansiosos. Isso é diferente de dependência, mas reforça a necessidade de reduzir ou trocar a medicação com orientação médica.

Dependência, tolerância e abstinência não são a mesma coisa

Esses termos aparecem juntos com frequência, mas descrevem fenômenos diferentes. Compreendê-los ajuda a conversar sobre o tratamento sem culpa e sem simplificações.

A tolerância ocorre quando uma mesma dose passa a produzir menos efeito e a pessoa sente que precisa de doses maiores para obter o alívio anterior. A dependência física acontece quando o organismo se adapta à presença da substância e reage caso ela seja retirada rapidamente. A abstinência são os sintomas que podem surgir nessa retirada. Já a dependência psicológica envolve a crença ou sensação de que não é possível enfrentar o dia, dormir ou lidar com qualquer desconforto sem aquele medicamento.

Nos benzodiazepínicos, esses fenômenos podem ocorrer, sobretudo em uso diário e prolongado. Por isso, a prescrição costuma considerar a menor dose eficaz, o menor tempo necessário e revisões frequentes. Há situações em que o uso se estende, mas essa decisão deve ser individualizada e baseada em uma avaliação cuidadosa dos benefícios e riscos.

Também vale atenção a outros fatores. Misturar medicamentos ansiolíticos com álcool, opioides ou outras substâncias sedativas pode aumentar muito a sonolência e comprometer a respiração. Não é uma combinação segura, mesmo quando a intenção é apenas “relaxar” ou conseguir dormir.

Por que algumas pessoas sentem que não conseguem parar?

A ansiedade pode ser extremamente desconfortável. Quando um medicamento traz alívio rápido, é compreensível que a pessoa passe a temer a volta das crises. Esse medo não é sinal de fracasso. Muitas vezes, ele revela que os sintomas ainda não foram tratados em sua raiz ou que faltou um plano claro para a continuidade do cuidado.

Além da adaptação física, pode haver uma associação emocional: o comprimido se torna a única estratégia percebida para lidar com reuniões, viagens, transporte público, insônia ou situações sociais. Nesse cenário, retirar a medicação sem preparar alternativas pode aumentar a insegurança e favorecer o retorno dos sintomas.

Por isso, reduzir um benzodiazepínico não deve ser uma prova de coragem nem uma decisão tomada de um dia para o outro. Em geral, o processo é gradual, respeitando a dose utilizada, o tempo de tratamento, outros diagnósticos, a qualidade do sono e o momento de vida da pessoa. Às vezes, a prioridade é estabilizar uma fase difícil antes de iniciar qualquer redução.

O tratamento da ansiedade vai além do alívio imediato

Uma medicação pode ter um papel muito importante, mas raramente precisa carregar sozinha todo o peso do tratamento. Dependendo do diagnóstico, a psicoterapia, a organização de rotina, o cuidado com o sono e a redução do uso de álcool ou estimulantes podem ajudar a diminuir a intensidade e a frequência das crises.

Isso não significa oferecer uma lista de obrigações para alguém que já está esgotado. Cada plano precisa ser possível para aquela pessoa, naquele momento. Para alguns, o primeiro passo será dormir melhor. Para outros, será conseguir sair de casa, retomar a terapia ou investigar se sintomas físicos, como palpitações e falta de ar, estão relacionados à ansiedade, a uma condição clínica ou a ambos.

Os antidepressivos, quando indicados, podem levar algumas semanas para começar a produzir benefício mais perceptível. No início, algumas pessoas apresentam efeitos adversos transitórios, como náusea, alteração intestinal, dor de cabeça ou aumento da inquietação. Acompanhamento próximo permite avaliar se esses efeitos são esperados, se a dose precisa ser ajustada ou se outra estratégia faz mais sentido.

Como usar medicamentos com mais segurança

A segurança não depende apenas do nome do remédio. Ela depende da indicação correta, da comunicação aberta e da possibilidade de reavaliar o tratamento ao longo do tempo. Alguns cuidados são especialmente relevantes:

  • Não inicie, aumente, diminua ou interrompa uma medicação por conta própria, inclusive se ela foi indicada a alguém próximo.
  • Informe ao psiquiatra sobre outros remédios, suplementos, consumo de álcool e uso de substâncias, mesmo que pareçam detalhes sem importância.
  • Conte se houve sonolência excessiva, lapsos de memória, quedas, piora do humor, pensamentos de morte ou mudanças importantes de comportamento.
  • Evite dirigir, operar máquinas ou tomar decisões relevantes se estiver com sedação, principalmente no começo de um novo medicamento ou após ajuste de dose.
  • Marque retornos conforme combinado. A consulta de acompanhamento não existe apenas para renovar receita: ela é parte do tratamento.

Em casos de uso prolongado de benzodiazepínicos, o médico pode propor uma retirada lenta, com redução progressiva e monitoramento dos sintomas. Esse caminho pode levar semanas ou meses, e a velocidade adequada varia muito. Ir mais devagar não significa que o tratamento falhou. Significa que o corpo e a sua história estão sendo respeitados.

Quando procurar ajuda com mais urgência

Procure avaliação médica o quanto antes se a ansiedade vier acompanhada de pensamentos de se machucar ou de não querer viver, confusão intensa, agitação fora do habitual, alucinações, uso descontrolado de medicamentos ou álcool, ou sintomas físicos importantes, como dor no peito, desmaio e falta de ar intensa. Em risco imediato, busque um serviço de urgência ou acione o SAMU pelo 192.

Também é recomendável procurar um psiquiatra quando o medo de “ficar dependente” está fazendo você suportar um sofrimento que já ultrapassou seus limites. O objetivo não é medicar toda preocupação da vida, mas também não é deixar alguém sozinho diante de sintomas tratáveis.

Em uma consulta psiquiátrica, sua história é escutada por inteiro: quando os sintomas começaram, o que piora ou alivia, como está o sono, quais tratamentos já foram tentados e quais são suas expectativas e receios. Na prática da Dra. Tahirih Kaffashi, essa conversa é parte essencial da construção conjunta de um plano de cuidado, presencial ou online, com decisões explicadas de forma clara.

Tomar um medicamento não define quem você é, assim como preferir discutir outras possibilidades antes de iniciar uma prescrição também não deve ser motivo de julgamento. Quando há informação, acompanhamento e espaço para perguntas, o tratamento pode deixar de ser uma fonte de medo e se tornar apoio para que você volte a viver com mais liberdade.

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